Video da Semana

O futuro dos games é realmente mobile? Provavelmente não

O futuro dos games é realmente mobile? Provavelmente não

Se existe uma palavra que serve muito bem para definir o crescimento da indústria de games mobile nos últimos anos, ela é "assustador". Segundo um levantamento do site Statista, em 2011, quase 81 milhões de norte-americanos jogavam algum título em seus smartphones. Em 2015, o número dobrou: já são quase 165 milhões de pessoas.
De olho na ascensão meteórica deste mercado, empresas muito conhecidas pelos gamers começaram a repensar suas abordagens com relação à plataforma mobile: a Konami disse que é nela que está o futuro, já que desde o ano passado a empresa tem visto a participação dos jogos para dispositivos móveis crescer de forma significativa em suas receitas. Em um comunicado, a companhia disse o seguinte:
"Os jogos se espalharam para diversas plataformas, mas, no fim das contas, a que está mais próxima de nós é a mobile. É nela que está o futuro dos games. Nós esperamos que nossas franquias maiores, como Metal Gear Solid e Winning Eleven, continuem indo bem, mas estamos sempre pensando em como colocar nossas franquias nos dispositivos móveis também."

A Nintendo, que tem uma tradição incontestável com dispositivos portáteis, vem desde 2013 buscando uma forma de abraçar os smartphones e tablets como parte de sua cultura. Para isso, fizeram um acordo com a DeNA, uma das desenvolvedoras de jogos mobile mais conhecidas do Japão, e anunciaram que cinco games serão lançados entre 2015 e 2017.
Por fim, a Square Enix foi outro grande player da indústria que também viu o quanto a plataforma móvel pode ser lucrativa, já que ela contribuiu com boa parte da receita da companhia no ano passado.
Mas será que ele veio realmente para tomar o lugar das plataformas fixas? Nossos consoles e computadores se tornarão, de forma súbita, peças que vão pertencer aos museus? Provavelmente não, e aqui estão os motivos:

Eles vivem em harmonia (por enquanto)

Embora o mercado de games tenha crescido bastante de forma geral na última década, ganhando um destaque imenso e vendo sua importância no mercado aumentar de forma significativa. Muitos ainda consideram o segmento como um "nicho" dentro da área de entretenimento. O mobile seria, portanto, um nicho dentro de outro – um "nichoception".
Não significa, porém, que os consoles estejam sob ameaça de se tornarem apenas peças decorativas nos cômodos das casas das pessoas. Isso porque os títulos mobile geralmente têm temáticas mais abrangentes e que são facilmente absorvidas por aqueles que não se enquadram no mesmo perfil dos mais aficionados.
Em outras palavras, boa parte do pessoal que joga Candy Crush Saga nunca tocou num controle de video game – e não existe nada de errado nisso. Apenas serve para mostrar que são dois segmentos diferentes, debaixo de uma mesma categoria mais ampla.

A geração do toque

Para o futuro, no entanto, existe um ponto em que os dois universos podem entrar em conflito. Alguns analistas apontam que as crianças hoje preferem usar um tablet em vez de assistir à televisão, por inúmeros motivos, como o fato de poderem interagir com a tela através do toque, ver vídeos várias vezes, jogar e poder fazer tudo isso em diversos lugares diferentes.
Infográfico da Mine&Co que apresenta alguns dados interessantes, como os motivos pelos quais as crianças preferem dispositivos móveis: poder levá-lo a qualquer lugar, poder interagir através do toque, é mais fácil de usar, dá a sensação de independência e vídeos podem ser vistos mais de uma vez
É essa "geração do toque" que pode ser o ponto de convergência entre os consoles e o mobile. Essa mudança não é uma questão de migração de uma plataforma para outra, mas uma simples troca de posições em termos quantitativos, já que é extremamente difícil para um smartphone ou tablet oferecer o mesmo tipo de experiência que se tem utilizando um console ou PC em termos de jogabilidade.
Não é simplesmente determinar que jogar com um controle é melhor que jogar em um aparelho, mas entender que, no fundo, são duas abordagens diferentes. O mercado já está presenciando uma queda na venda de consoles que tende a se manter – o que pode indicar que eles não são mais a única opção de entretenimento para quem busca algo mais casual, mas permanece como a principal escolha de quem é mais hardcore.

Não se trata de converter, mas de ampliar

É claro que o movimento de empresas como a Konami e a Nintendo é feito baseado em uma motivação extremamente simples: dinheiro. Não é somente esse o motivo, claro, mas a parte econômica é essencial para que uma decisão desse tipo seja tomada, pois está relacionada à sobrevivência da companhia.
Sabendo que já existe uma base consolidada de clientes nos consoles e tendo em mente que o desenvolvimento de games mobile não implica em uma "canibalização" de seus produtos – como no caso de a pessoa deixar de comprar um título no console para jogá-lo no smartphone, por exemplo –, não existe qualquer barreira para que as empresas não busquem ampliar seu horizonte de atuação para que muito mais pessoas tenham acesso aos seus produtos e contato com a marca.

"Tudo bem, mas os títulos dessas companhias que fizeram maior sucesso são adaptações de jogos que eram famosos nos consoles ou em outros aparelhos portáteis." A questão é que os smartphones top de linha, principalmente nos últimos dois anos, têm saído com configurações que superam as dos dispositivos portáteis a que os gamers estavam habituados – além de alguns deles terem um preço menor.
A restrição de que apenas essa galera podia levar seus jogos para onde quisesse caiu por terra e facilitou o acesso de outras pessoas.
O sucesso desses games é diferente do de outros fenômenos mobile, como Angry Birds, Candy Crush e Clash of Clans, que preenchem um espaço que estava vago no mercado – e talvez não dessem tão certo se a fórmula fosse repetida numa plataforma dedicada. Além disso, eles se fazem mais presentes – o que permite que as pessoas tenham um contato mais frequente – e demandam um esforço infinitamente menor.
Tudo isso serve para mostrar que, mesmo com muita gente gritando que o mercado estava saturado, existe muito que ainda não foi explorado e pode render bem mais. É esse potencial de rendimento que as grandes desenvolvedoras buscam, já que o mobile oferece a chance de se obterem retornos astronômicos (de forma relativamente fácil) a um custo infinitamente menor de produção – o que nos leva a outro tópico importante...

Jogos AAA sempre serão jogos AAA

Embora produzir jogos menores para smartphone seja mais barato do que as grandes superproduções que estamos acostumados a ver nos consoles e PCs, a rentabilidade que os pequenos aparelhos trazem pode ser encarada como uma fonte adicional, e não concorrente.
Isso porque os jogos grandiosos, como Metal Gear Solid V, The Last of Us, GTA V e The Witcher 3, para citar apenas alguns exemplos, pertencem exclusivamente às plataformas dedicadas e, apesar de custarem rios de dinheiro para serem produzidos, conseguem dar um retorno à altura.
O segmento de jogos AAA é um dos que as desenvolvedoras não vão querer abrir mão, porque, além de ser extremamente rentável, ele não pode ser replicado no ambiente mobile, independente do quanto os aparelhos evoluam. A experiência e a magnitude simplesmente não são as mesmas.

Isso assegura que as duas frentes, mobile e plataformas fixas, poderão crescer livres e soltas, sem depender diretamente uma da outra. Podem existir situações, inclusive, em que elas vão conviver harmonicamente em função da jogabilidade e da experiência, independente da plataforma: basta olhar para o que acontece com o Minecraft, um game que existe de forma paralela em consoles, PCs e smartphones/tablets e é um grande sucesso em todos.

O futuro, na verdade, pode não ser nada do que estamos achando que vai ser

Uma coisa é certa: assim como a indústria dos games evoluiu do Pong num determinado período, com o advento da realidade virtual e aumentada existe uma possibilidade gigantesca de que a gente presencie uma evolução de proporções similares.
Se o público responder de forma positiva a isso, é algo que se tornará rentável e o foco dos desenvolvedores será fazer com que a experiência seja atraente e agradável para todos para que isso seja visto e vivido como um processo natural de avanço.
No fim das contas, pelos próximos 10, 15 anos, é possível que plataformas fixas e mobile cresçam em seus respectivos espaços e até tenham interações entre elas, mas as chances de serem permanentes são mínimas. O certo é que a indústria, assim como nós, vai se adaptar – como ela sempre fez desde que nasceu.

Fontes